2 de Junho de 2012

Sahelsounds




A partir do deserto
                                                                                                                                      um silêncio se apaga outro silêncio  de água
António Ramos Rosa

Eu continuo o peripatético patético, com pupila de flâneur,
passos de viajante, sentado num snack-bar que ninguém
baptizou Walter Benjamin

Urdindo auxiliado por esse diário - ao que dizem
os estudos, cancerígeno - nokia não saariano-
a Margem Sul do verso ( esse outro deserto)

A associação com linha invisibilíssima,
de espantos anões de surreal quotidiano,
do tamanho de botões ou bolsos, com que fala
mas nada diz ou guarda

Es_pasmos, ou suave sindicato
reivindicativo de pelo menos,
06:53 de silêncio pio,
do tão incréu burburinho
do Cais de Cacilhas

Para os conversos para ringtone Tinariwen,
trupe musical de ex-guerreiros tuaregues,
transumando mais tarde lados de rio e delírio,
sobre este deserto branco (que vou manchando),
e sobre as águas, pelas mãos de toner decerto crístico,
não imprimindo pegada

Se tanto, uma boca-e-aberta
tolerando algum ar,
quente, árido lembrete
de uma outra latitude
psicológica, rosas de areia
em tempestade

E célebre tirada sobre
os escritos de bardo negacionista,
da assisada crítica

" É a guerra."

Sim, mas é música também

De Abidjan, a Bamako até Tagus

Como a presente compilação de canções gravadas por telemóveis nómadas
poema, trilho que sonoriza todas as bandas,
muito literal peer-to-peer







À Boleia da Boleia

este sistema ( e Terra inclusa) viaja à razão de
250 quilómetros por hora (- +) por dentro da galáxia inteira que gira em volta
de um grupo central de galáxias, a 300,
e por aí vai...
  
parado calado dormindo o corpus

destes versos continua um reboliço de cursos e recursos,
usos e declínios

indaga o intranauta Carlito  "(...) E que pode a realidade contra Shakespeare?"

pois o panteão de criação é pátio (alfacinha) e canção
para o tudo ao mesmo tempo do infindo

heróis num passeio, deuses na escada
sem noves fora nada, re-magicando autorias, datas, lugares 
para concretos acontecidos, o assombrado dubitativo 
colige sombras de imos wows 
concluindo

no remate antológico ,

mutatis mutatis
a cinese contra o cinismo

25 de Maio de 2012

Qibla

volto o portátil na direção do farol de middle bay, alabama,
como um fiel discípulo do silêncio se vira para meca:
gato, mulher, céu, luz, mar e criaturas de água salgada,
um manual de construção de barcos roubado a chesterton,
o desenho sobranceiro de ar deslocado sobre a casa
de dois ou três pássaros sem nome, origem nem destino,
são a minha re-ligação wireless, o sonho reparador
para um peito sempre à beirinha de ficar sem bateria

se me cansar, dou uma quilha a esta oração,
para rasgar horizontes

24 de Maio de 2012

Requiem para um Ex-Melhor Amigo

Neste momento ainda te odeio,

considero-te um filho da puta sem escrúpulos,

que quis inaugurar uma palavra sem ler uma linha

de Cesariny ou de O´Neill,

quando te enxotei do meu espanto, à laia de corvos de um espantalho,

ordenei às alturas e aos meus olhos que não chovessem meses a fio

mas crê que, lá mais para o fim, quando for o tempo

de me rever em toda a matéria e espírito aprendidos,

sobre a costa açoitada, anoitecida , quase

vazia da memória, desnuda lentamente por provável tsunami alzheimer,

haverá um punhado de cicatrizes com o teu nome,

semelhando uma constelação escarificada








Cavalo de Pau, à Rua de São Bento


não-helenamente, troianos são detectados por antivírus,
belo foi-se embora e levou tudo o que era,
sem beleza, limitamo-nos ao poema,
modo de levar mais corujas para atenas

18 de Maio de 2012

Reavaliação de Todos os Valores

Prometeu muito este fogo de deuses,
porém o vento dos séculos suprimiu-o,
como a um retórico fósforo político,
mas não cruzemos o conformismo,
nem desresponsabilizemos o sangue,
chovamos no molhado deste lado da insurreição,
sublevemos os braços em haste, os punhos em bandeira,
a voz em capslock, reiterando um escarcéu
de sinos dos demónios, no ouvido telúrico da deixa batida,
repisemos estas uvas passas,
pela memória saudosa de um chão
que deu vinho


9 de Maio de 2012

Era um daqueles miúdos vivaços que avançava pela praça até ao coração

Era um daqueles miúdos vivaços que avançava pela praça até ao coração concentrado de um alvoroço, enxotando a pontapés ortopédicos os bandos de pombos, só para os ver voar, num abrir de leque de ventos de cores rápidas e ruído largo, ainda cego à circunstância de sua vontade de beleza,  teimosa como luz, comportar o custo pesado de, no espelho dos gestos, corresponder, na verdade, a um espalhafatoso quadro de pássaros estonteados, transidos de susto, pelo ingénuo movimento expressivo de uma ideia de amor apercebido como uma séria ameaça, de que, às quatro da tarde, se eu, adulto ciente, suspendesse a escrita corrida, me alçasse do banco e reencenasse a sequência de movimentos de minha infância, quem me visse, adjectivar-me-ia de louco, bêbedo, drogado, talvez criança, mas em sua acepção pejorativa.